Frase do Dia

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domingo, 21 de novembro de 2010

Apologia ao amigo Reis


Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa terá nascido em 1887, tendo sido apenas, em 1912 mostrado ao Mundo pela mão do ortónimo.
Mais baixo que Caeiro, de um moreno mate, seco mas forte, com uma educação rígida num colégio jesuíta é o homem que exulta a monarquia, o classicismo e a disciplina.

Ao nível das suas características informais destacam-se várias, que numa compilação una e coesa, desenham o denso panorama anímico do médico.
O neopaganismo é um domínio que o caracteriza. Acreditando nos deuses da antiguidade grega e rejeitando o cristianismo (A crença nos deuses é uma fé de uma espécie inteiramente diferente da fé cristã), por este constituir um impasse à vivência real e objectiva, não deixa de ver no que o rodeia, o divino. Para Reis, deus não é uma essência, não é uma entidade individual e afectiva, é um ser múltiplo, uma metáfora do Mundo.

A crença e aceitação do Fado, o cumprimento plácido dos desejos do Homem, com base na autodisciplina, ditam em suma duas características facilmente confundíveis: o epicurismo e o estoicismo.
No epicurismo, bebendo do seu pai Epícuro, o poeta, persegue numa indiferença ataráxica os seus mais profundos desejos. Embora se verifique nesta perspectiva, uma ambição de viver por inteiro, Reis através dos ensinamentos estóicos/neoclassicos impõe a si mesmo a disciplina que o moderando, impede o seu sofrimento, o compromisso e a sua ligação a paixões e a coisas inúteis: Abdica / E serás rei de ti próprio.
 A sua educação assume assim um papel autoritário nesta relação que, o "eu" íntimo estabelece com a vida e com o Mundo.

Temáticas como a efemeridade e brevidade da vida, a precariedade do Homem, a Natureza, a sua impotência enquanto médico, remetem de uma forma geral para a fragilidade do Homem, perante o destino, a força superior Desenlacemos as mãos, não vale a pena cansarmo-nos.
Numa perspectiva de superar todas as angústias, que progressivamente vão surgindo, o sujeito poético refugia-se nas odes clássicas e na falsa felicidade pagã partilhada com Horácio.

 Quanto ao nível das características formais, que criam a estrutura de base ao raciocínio Real verificamos: uma escrita erudita (Reis escreve melhor que o próprio Pessoa), regular na rima e na métrica, rica ao nível da classe de palavras e figuras de estilo. É caracterizada ainda pela falta de dinamismo, existência de monólogos estáticos que, enfatizam o carácter contemplativo do eu poético perante a Vida.
 Estão presentes elementos do latim e da antiguidade grega: "Lídia".

Por tudo isto e muito mais, Ricardo Reis é em suma apologista da procura e satisfação dos desejos do Homem, sendo esta desapegada, calma e sincera. É nesta aceitação tranquila do eu, do Mundo e da Natureza que se vislumbra, por momentos, a possibilidade de ser Feliz.

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