Frase do Dia

  • "Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão"

domingo, 13 de março de 2011

Uns pós de nada de uma Mensagem

 A Mensagem é: A procura do íntimo da razão que ilumina a vida, que vale a pena ser vivida.

O ilustre Sr. Fernando Pessoa (será redutor chamar-lhe poeta, uma vez que, este grande génio da literatura portuguesa e mundial edificou um espólio que vai muito para além da mera poesia, estendendo-se à prosa, à filosofia e a outras tantas abordagens possíveis do que nos rodeia e compõe), deixou em vida uma única obra escrita em português Mensagem. Mensagem, que significa " A Mente move a matéria" é uma obra exímia, épico-lírica, que abordando os factos relativos à expansão marítima portuguesa, bem como tudo o que por detrás deles se esconde, é de fácil leitura, mas difícil compreensão.
   Pessoa deixou à Língua Portuguesa, à sua verdadeira pátria, um enigma por desvendar, uma mensagem oculta e misteriosa que será apenas decifrável por aqueles que se lançando no percurso iniciático da razão e do sonho, pretendam seguir o caminho imortalizado da virtude e da gnose. Luzidamente, o multifacetado "artista", recita-nos um passado materialmente realizável e realizado, apresenta-nos um conjunto de figuras fundamentais a essa apoteose profana, dá ao leitor uma verdadeira, mas hermética descrição dos valores, promessas e desejos que se escondem nos rostos rígidos e invictos dos Reis e Guerreiros portugueses. Tudo isso e todos eles, foram asa, espada e cabeça de um brasão materialmente mitigado e lisonjeado.  Apesar dos referidos esforços, de toda a vontade, todo o sofrimento e Mostrengos vencidos, o império português, construído através do cumprimento marítimo, se desfez. A letargia e decadência impostas desde então, vêm em estado latente pelas Eras, gritando intemporalmente o poeta: Senhor, falta cumprir-se Portugal!  É neste grito de ipiranga  introspectivo, que Pessoa abre mão do conceito bíblico Quinto Império. Anunciando a vinda de um herói encoberto, que erguendo a espada da bravura lusitana, fará cumprir se um novo mar infinito que é português. Apunhalando a Distância inatingível, lançando-se na linha fria do Horizonte e elevando-se através do mito que é um nada que é tudo, este D. Sebastião que noutro nome mais alto se irá fazer reconhecer é o verdadeiro herói desta história que é Nossa. Mais do que uma simples epopeia onde os bons derrotam os maus e um final claro se desenha desde o princípio, esta obra, envolta em símbolos dos quatro cantos telúricos, fala-nos de um futuro possivelmente promissor, mas sempre em aberto, o que gera nos heróis dos Tempos e da actualidade uma vontade de chegar a uma nova Índia, que não existe no espaço, mas que será desbravada pelas naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos.
Deus quer, Deus quis que este Fatum se cumpri-se. E desde então, esse destino vive corrente, como sangue que circula nas veias dos nossos avós e dos nossos filhos, esperando-se o dia em que os lusos Adão e Eva no íntimo sofrimento patriótico dêem a este Tempo os filhos que ele merece.
Vós sois a luz do Mundo (Apóstolo Mateus)
É hora.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Outras tantas coisas que somos

Somos miolo de um mesmo pão que ganha bolor em mãos alheias.
O que escrevo sem sentido, só para ti tem caminho.
O que escreves na loucura, faz-se raíz da minha alma,
Penetra fundo como quando morro de sede...
Neste mar demasiado salgado.

Se existirem dois seres profundamente cúmplices,
Seremos nós.
Se existirem dois seres que sofram da mesma forma,
Seremos nós.
Se existirem dois seres que silenciem pelas mesmas causas,
pelos mesmos efeitos
e em simultâneo,
Seremos nós.

Que saudade esta,
que trago e tenho.
Queria estar como o nosso sangue:
Unido, em vasos distindos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cor de Rosa

O céu estava cor de rosa hoje ao entardecer.
E foi bom.
Estavas frio, mas aqueci-me.
Foi bom.

O céu era todo para mim,
só para mim.

E tu não duvidavas.
Porque tu, assim quiseste.
Obrigada.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Leve

O Ar fizera-se mais leve...
Era tempo de deixar tudo o que nos prendia.
Os horrores, pelos tempos negros,
As vigaríces, pelas horas de culpa,
Os medos, pelo que não contemplam,
E por fim, todas essas "coisas" terrenas que não valem a pena.

É tão fácil deixar o que nos custa...
Ah ah,
Tão fácil, tão fácil.

De sorriso, sorriso grande...
Empunhado, é claro.

Não importam, essas coisas que nada valem,
passam como o ar puro que agora respiro:
Amanhã, hoje talvez ao fim do dia, já tudo tenha passado.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Morte

Ainda é cedo para morrermos os dois...
E tu já te queres suicidar nessa loucura,

E eu já não vejo graça, em nada do que a vida augura.
Talvez seja tempo,
Afinal:
De partirmos os dois,
Para o lugar onde a vida e morte não encontra.
É hora.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Enough


Frágil meu e teu
Por não ter sido a sós
Por ter Sido (Ser)
Por nos ter Tido (Ter).

Quem me dera
Saber beber dessa gota de amar.
Um copo partido em casa
Morrer de sede no próprio mar.

É frágil nosso
Mau para o corpo
Mau para a alma
Bom para o Morto
Bom até para a calma

Companhia ainda a há
Esperança ainda tenho e,
Contenho.

Será algum dia possível este Adeus do Amor?

Será (já foi)?
Irá (já cá não está)?
 
É frágil por se querer partir, mas ainda não ter partido.

sábado, 29 de janeiro de 2011

No fim

Nunca nos tornamos verdadeiramente selvagens:
Porque os Outros nos impedem.

Vão-nos amparando aqui e ali.
Falam-nos de consolo e de apoio.
Vão estando lá,
para o sussurro e bajulação.

Vamos rindo e chorando
Com tantos ao nosso lado.

Temos medo, medos comuns muitas vezes.

Chegamos a cumes com Eles,
Vencemos em equipa.
Resistimos a derrotas num grito comum.
Protestamos em conjunto.

Somos vistos como um todo,
e avaliados nem na metade.
Somos símbolo de união,
numa individualidade oposta.

Quando amamos,
Amamo-nos uns aos outros.

Somos o Nós em todas essas circunstâncias...

Mas esquecemo-nos que, afinal
Nascemos sós,
Morrendo da mesma forma.

No fim de tudo isto,
Somos nós connosco.

Se é difícil imaginar a paz
Na alegria da solidão?
É.

Mas acredita,

És só tu contigo
E eu comigo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um dia

Um dia vamos estar demasiado velhos para andar a pé e subir montanhas, já não apreciaremos o ar puro do campo e os animais que nele habitam. Vamos passar a vida a dizer "No meu tempo é que era" ou "Já não se fazem coisas como antigamente", vamos resmungar mais e preocupar-nos demasiado connosco. Um dia vamos deixar de ter paciência para acordar de madrugada para ver o nascer do sol, vamos deixar de nos empolgar horas antes de irmos sair à noite, vamos deixar de sentir o arrepio na barriga a cada vez que vemos a pessoa que amamos. Um dia vamos deixar de nos rir das piadas secas dos amigos, vamos achar que somos demasiado adultos e, recusaremos qualquer partida de Party&Company. Um dia vamos começar a vestir saias compridas e a dizer "Vai-se andando", porque o frio nos vai gelar os ossos e nunca mais iremos permitir que o calor das pernas de adolescente extermine o gelo glaciar. Um dia vamos deixar de surpreender quem mais gostamos, porque sofremos por essas ou outras pessoas, vamos achar que dar flores está fora de moda e que, um postal com simples frases é coisa de miúdos. Um dia vamos todos entrar na faculdade e deixar de ter tempo para a família e para os velhos amigos, vamos andar sempre de trombas, vamos achar que as dificuldades só nos tocam  nós e que por isso há que ter direito de exilo. Um dia vamos deixar de achar graça ao Natal, porque vamos achar que já não temos a verdadeira idade para essas fantasias. Não vamos ver graça nos presentes e vamos passar a consoada a contar as notas que o avô nos deu. Um dia vamos deixar de gostar de coisas novas, porque tudo já está inventado e tudo já está dito. Já não vamos ter prazer em ir a um restaurante novo, porque afinal ,trata-se apenas de ter uma coisa diferente no prato. Vamos deixar de querer viajar, porque isso mata a carteira de muita gente e porque cada vez mais os terroristas fazem cair aviões. Um dia vamos deixar de escrever, por acharmos que já não temos a quem escrever, que já não temos capacidades para o fazer. Um dia vamos deixar de nos encontrar, porque os telemóveis e os chats abreviam o tempo da viagem para ir ter com o outro. Um dia vamos deixar de sorrir por chegar à estação de comboio de Cascais ou de Lisboa, vamos deixar de nos rir a cada vez que tropeçamos e caímos, vamos ser demasiado sérios no cumprimento de regras, mas caso apareça uma possibilidade de fuga ao fisco, não vamos hesitar. Um dia vamos deixar de ir ao teatro, porque nos vai custar vestir roupa chique ou então porque o teatro vai ser cada vez mais caro. Um dia vamos deixar de chorar de emoção, porque já nada nos vai ser capaz de comover, vamos deixar de andar às cavalitas ou de levar alguém ou colo porque "Estou muito gordo" ou "Não tenho forças". Um dia vamos deixar de nos sentir bem a tirar fotografias, porque isso implica ter sempre a mão fora do bolso e estar atento. Um dia vamos passar mais tempo sozinhos, vamos deixar de acreditar nas pessoas, vamos achar que a culpa é do Mundo e vamo-nos esquecer do mal que fizemos. Um dia vamos achar que house é coisa de gente esquisita, Kuduro é para malta de baixo nível e o que está a dar é somente o monótono sussurrar das moscas. Um dia vamos achar que temos de tomar muito café para nos mantermos acordados, vamos achar que ser fino é não falar  com estranhos e vencer na vida é sinónimo de ter muito dinheiro. Um dia vamos ter profundas e dolorosas saudades de quem verdadeiramente gostámos e gostou de nós, vamos chorar por não termos dito o que pensámos ou sentimos, vamos sentir frio por não termos abraçado aquele amigo que sempre esteve lá. Um dia vamos casar com a pessoa que não gostamos, porque não fomos humildes ou porque pura e simplesmente não nos apeteceu sair de uma zona de conforto. Um dia seremos muito mais tristes, azedos, cinzentos e snobs... 
Nesse dia, o mais provável é deixarmos de partilhar todas estas coisas...
Por isso aqui fica uma sugestão...
Quando esse dia chegar... vira-lhe as costas.

Pequena adaptação do anúncio Sumol

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Umas quantas passas

As sombras não têm tempo, são uma roda intermitente sem necessidade de contagem.

As realidades ou irrealidades verdadeiramente importantes, não são mensuráveis.

As ausências não se trocam, coincidem.

O que damos não contamos, o que recebemos não esquecemos.

As palavras nunca chegam nem nunca servem.
Qualquer coisa que se diga, já foi dito. Não existem palavras por dizer...

Os perfumes cheiram-se, as ruas sentem-se.
E quando isto se troca... Por fim...está feito.

Nós

O que mais gosto em nós...
Não são as ideologias de esquerda ou de direita,
Não são as beatices ou as descrenças,
Não é a inteligência,
Não é a imaginação,
Não são os sentimentos ou a falta deles,
Não é o cepticismo nem as influências,
Não é o gosto nem a preguiça,
Não são as falhas nem os triunfos,
Não é o que criamos nem o que paramos de criar,
Não é a mentalidade meticulosamente matemática,
Nem a crença pura no poder das letras.
Não é a capacidade de julgar nem a de silenciar,
Não é o desleixo nem a obcessão...
Não é...e é tudo.

O que mais gosto em nós...é capacidade de aceitarmos... todas estas coisas...
Em cada um de nós.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Álvaro no seu sentido mais leve

  De acordo com a carta escrita por Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, Álvaro de Campos terá nascido em Tavira a 15 de Outubro de 1890. Nesta mesma cidade algarvia terá frequentado um liceu comum e aprendido, por via de um tio que era Padre, o Latim. Mais tarde ter-se-á mudado para Glasgow onde inicialmente frequentou o curso de engenharia Mecânica. Não tendo terminado esta licenciatura, optou pela engenharia Naval. Ainda na Escócia desenvolveu actividades ligadas à sua profissão, tendo posteriormente se mudado para Lisboa, onde passou à inactividade.
  Na sua biografia é de destacar um acontecimento importante na marcação do período de passagem de uma fase de decadência para uma fase de histeria e alvoroço, a viagem ao Oriente (momento em que foi escrito o "Opiário).
  No que diz respeito às características físicas, vemos grande similaridades com o próprio Fernando Pessoa. Campos era magro, alto, com uma tendência para se curvar, usava monóculo. De cabelo liso e moreno, ainda que com alguns cabelos brancos, aparentava ser um judeu português.
  Ao nível das características informais, será necessário fazer uma divisão das fases distintamente personalizadas que o poeta atravessara.
   Numa primeira instância, temos a fase decadentista, esta caracterizou-se por uma cansaço e sentido enfastiante da vida; numa necessidade de corromper o estado amorfo em que se encontrava, o poeta partiu na descoberta de novas sensações, viajando para o Oriente.
   Tendo regressado à Europa, foi conduzido a um novo estado anímico. Integrando as correntes modernistas aí exultadas, Campos celebrou nesta fase futurista/sensacionista o triunfo da novidade, a energia, a força, a rapidez, as dinâmicas imparáveis que deixavam o século 20 cada vez mais "louco".
   Por último, pela incapacidade de realização, pela constatação do mistério indesvendável das sensações, Álvaro cai num diferente estado abúlico e desesperançado. Apartando-se de tudo e de todos, não encontra em parte alguma o sentido da existência, o motivo da sobrevivência.

  Será desprezível a leveza na abordagem de cada uma das fases mencionadas, às quais o próprio poeta se sujeitou,ou não. Talvez Pessoa, se tenha sentido verdadeiramente sozinho e, por essa razão, terá criado um ser incomodamente parecido consigo, que incluiu na sua roda imparável de emoções e para sempre recordada dos tempos outrora heróicos. Caminhando lado a lado com a melancolia, com o desejo do inatingível e com a profunda agustia de não realizar o irrealizável, estas duas almas singularizam-se num uníssono de vazio, de cansaço, de desgosto não desgostado pela vida.
   Sempre tentaram, sempre tentaram se esconder numa qualquer coisa matrializável... na máquina, no álcool, no ópio, nos outros, na infância, no sono ou no simples verso. A verdade é que sempre tentaram esconder uma qualquer coisa, que na poesia intelectualizada que escrevem se desvenda irremediavelmente... a tristeza de um dia terem nascido no Mundo e para o Mundo.

   Tentemos por isso, mais uma vez, na porcaria da mentalidade de português, compreender uma qualquer coisa nos génios, que os próprios nunca compreenderam em si.
   Que me poupem a alma... Deus nosso! Eles nasceram no Mundo e para o Mundo, mas nunca fizeram parte dele... Como poderemos nós, simples mortais, que nada mais conhecem para além da janela da vizinha, apartar-nos dessa realidade idealmente criada e vivermos, por um só segundo a genialidade deste deus fecundo?...Dessa Pessoa, que até o sobrenome teve...? 

Frente e Verso

Já pelo sair da porta da frente...
Num sussurro,
Alguma coisa,
Alguém, talvez,
Chamou por mim.

Tinha de voltar para averiguar.

-"Esqueceram-se-me as queijadas".

Um toque fatal. Uma falha crucial.
Afinal, ainda existem coisas que nos fazem parar e voltar.

Mal ou bem, que esse regresso me fez...
Aconteceu.
Para a frente e para trás, também a evolução se faz.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Fim

Acordei e pensei:
Hoje terminou uma etapa.
Hoje começou uma nova etapa em mim.

Não veio de fora para dentro.
Veio de mim para mim, fugindo de certo para fora.

É hora...
É tempo de partir...

Tudo o que foi meu, levo no coração e no baú das memórias.

domingo, 9 de janeiro de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dividir II


Depois, no grupos dos que sonham...

Temos os que nunca chegam a ir,

Os que vão mas arrependem-se,

Os que pensam que vão,

Os que vão e nada deixam,

Os que não vão nem deixam ir,

Os que vão por obrigação...

E talvez existam...
Os que vão e são muitas vezes felizes por um dia terem ido.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Artista

Artista.
Normais ou anormais,
Não importa.
Mais bem parecidos,
Desparafusados.
Quiçá comuns como todos os mortais...
Quiçá imortais, por construírem a tempo,
Mundos que próprio Mundo ainda não viu.

Os riscos, as cores, os relevos...
Naqueles dias foram assim
Por acaso,
Caso o acaso
Se lhes tenha tomado conta.
Naqueles dias foram assim
Sem acaso,
Porque algo os atormentou,
Porque naquele dia simplesmente,
Havia a necessidade de atribuir um novo rumo ao que mudou.

Grandes obras nascem duma guerra interior,
Por mil tentativas, uma fica perto.
Grandes obras nascem da ataraxia,
da impassibilidade estagnada em si mesma.
Assim é como na vida.
Os grandes feitos poderão vir da persistência...
Mas há sempre na história, uma descoberta na coincidência.

Os Artistas,
envolvem.
Petrificam.
Vão-nos às entranhas,
por se assemelharem a qualquer coisa que nos pertence,
ou pensamos que pertence.

Os Artistas,
às vezes não nos dizem nada.
Como o céu não diz nada aos peixes,
Ou como as letras,
Que nada significam para um analfabeto.

Os Artistas,
Os verdadeiros artistas...
Conheço poucos.

Os que conheço,
dão-me voltas.
Por isso gosto.
Gosto Muito.

Mais que tudo,
Mais que a atitude
Mais que a leveza de espírito,
Mais que os sentimentos que aspiram...
Mais que tudo isso.
O verdadeiro significado destas frases:

"A descoberta do cientista é o comum do artista. A idealização do artista é o falhanço do cientista"

Nós descobrimos uma qualquer coisa que já existe.
Vocês...
Vocês são Deuses, criam o inexistente

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Pedalar

Uma das grandes questões existenciais:


Antes o último do primeiro pelotão do que o primeiro do segundo.

Parece fácil!?
Mas não é assim tão óbvio.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dividir



Os que sonham constroem o Mundo.
Os Outros limitam-se a copiar.

E assim se dividem as pessoas em dois tipos totalmente distintos.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ser

Arrepio.
Naquela madrugada de cristal os sons ouviam-se mudos, como se tudo o que existe fosse fruto da nossa imaginação.
Enfrentando os pés quentes no orvalho da erva fresca, Respirei.
Respirei como se não houvesse fim.
Até sentir tonturas.
Até sentir dor de prazer na respiração.

Estava feliz.
Era eu. Sem ter de tentar.

E mesmo com o frio,
Mesmo com os cubos de gelo que encostaste à minha espinha,
Dolorosos, amargos, sem sentido,
Era eu.

Ser-se.

Coisa que já não consegues.
Tinhas medo...mas ficaste igual a todos os outros...
Assim...sem respirar o ar puro da manhã.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

IR

Como se o ar me levasse, vou para onde o vento soprar.
De rompante ou mais lento, assim se fará um novo estado emocional. Puro, Fresco, Precioso.
Desta cidade vou, porque no campo se fazem Homens melhores e mais felizes.
Quando voltar pode estar tudo na mesma, pode ter mudado tudo... Na certeza porém, jamais me reconhecerei na mesma pessoa...A Natureza transforma, porque se transforma a ela própria...
E nós, não nos recriamos nem criamos nada, ficamos tão simples na nossa eternidade, naquele mundo à parte longe do Mundo, mais perto do Animal do que do Homem que tentamos a cada dia ser.
Ainda Bem.
Até breve.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Relembrar

Hoje relembrei estas palavras de um dos meus livros preferidos:
 
"Soube então que dedicaria todos os minutos que nos restavam juntos a fazê-la feliz, a reparar o mal que lhe fizera e a devolver-lhe o que nunca soubera dar-lhe. Estas páginas serão a nossa memória até que o seu último suspiro se apague nos meus braços e eu a acompanhe mar adentro, onde a corrente rebenta, para mergulhar com ela para sempre e poder finalmente fugir para um lugar onde nem o céu nem o inferno possam alguma vez encontrar-nos."

Carlos Ruiz Zaffon

Bicho

Vai o que me dói naquele arrepio que te entra pelo corpo e que te não aborrece.
O que te faz trémulo é o Bicho. Aquele Bicho que se estende pela tua pele da mesma forma quando outrora um outro alguém (que não Bicho) o fazia.
Pouco a pouco consumindo-te uma alma que amo, aquele germe inominável apodera-se.
Sem dares por isso, como quando deixamos uma porta aberta e o frio entra sem pedir, vai-se-te carcomendo pedaços teus e meus que, a pouco e pouco, fomos fazendo nossos. Vai-se alterando a tua expressão, vão-se alterando muitas coisas na vida sem dar-mos por isso.
Tudo deixa de ter aspecto, deixa de importar.
As coisas perdem a graça. Mas ah! Quase que me esquecia...
O Bicho faz companhia. Não nos sentimos sós. Sentimo-nos preenchidos por uma coisa qualquer, qualquer coisa que valha, que ocupe espaço.
Parece isto ser o mais importante.
Parece.
Mas não é.

Quando

Quando deixar de escrever:
É porque deixei de c(que)rer
Saber.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Eu sim

Viver.
(Se é que me faço ouvir)
Viver é muito bom.
Viver é a melhor coisa do mundo, porque é a única coisa que Existe no mundo.
E é vivendo que nos damos conta que a vida aí existe
Viver é bom.
Seja de que maneira for,
Viver é muito bom.
Mesmo que ainda não saibas porque é que vives,
Mesmo que já tenhas gastado mais de metade da tua vivência a pensar nisso.
Pensa que viveste a pensar em alguma coisa, numa ideia feliz.
Isso só por si já é bom.
Por isso viveste.
Parabéns por isso.
Eu também vivi.
E vou continuar a viver,
Acreditando que a vida é eterna,
Como as crianças acreditam no pai natal ou no menino jesus.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Não (h)existe

Uma epidemia desassossegante flui como a raiva desce por nós quando nos fazem mal. Sentir esta nausea nauseabunda de viver pensado que se vive alguma coisa. Porque não se vive nada. Pensa-se que se vive, não se gastando mais tempo a pensar a vida do que a vivê-la. Viver é que é só por si não viver.  Imaginar que temos o espaço e o tempo, quando não se tem. Isso é imaginar de mais. O tempo, o espaço, as coisas, as essências não existem. Conseguirmos até desconfiar da nossa própria existência é já dar à vida o apelido de sonho.e não te ponhas a pensar nisto. Não tem filosofia que sobeje. É assim porque é.
Num limbo tão seco de nada, numa casa tão vazia de pouca coisa, num povo que é farsa, que é nojo. Que é só alguma coisa tentando ser alguém. Não há vontade de ficar, há uma constante vontade de partir para qualquer sítio, longe deste desassossego que emociona, que entristece, que apodrece, que nos mantém vivos numa coisa que não queremos ser.Só queremos ver. Ver, porque isso anima a alma e deixa-a, por instantes, sossegada. Mas esquece, o limbo não se apoquenta, nunca. Está cá, mesmo quando a alma não está ou não quer estar.
Acordar em dias seguintes e contíguos unidos apenas pelo tempo, que não existe, e pelo espaço que se vê obrigado a existir,não existindo: é crime. Matar a alma com coisas metidas em becos de horas em chão e pântano... preferia ficar a dormir imaginando que vivia e não dormia.
Seria tentada a dizer que preferia não ter amanhã, sentir amanhã qualquer coisa entre o nada e o menos que nada...
Mas tem de ser, porque numa coisa ainda acredito: sossegar é morrer.
Isso não quero.
Enquanto ainda tiver esta curiosidade pelo amanhã, que é tão grande como o meu desassossego.
Vou continuar calada, embora que freneticamente a desejar viver isto que nem sequer existe.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Natureza

Só me saem frases curtas...
Hoje digo: Amo a Natureza, mas não a sei amar...
E fico triste, muito triste com isso.
Ela merecia,
Pelo menos isso.

domingo, 28 de novembro de 2010

sábado, 27 de novembro de 2010

Espectáculo

Bate palmas,
porque isso nos mantém unidos.

Sorri,
que isso fortifica-nos.

Sensibiliza-te,
porque isso cria laços.

Abraça,
porque isso mantém-nos quentes.

Naquela sala de espectáculo, para sempre imortalizadas as nossas vivências, as nossas brincadeiras, a nossa Amizade.
Por isso,um dia sentiremos profunda saudade daquelas sextas à noite, em que, numa questão de horas, tornávamo-nos realizados.No regresso a casa encostados ao vidro frio, éramos: Pelas relações e pelas lições.
Assim se faz Gente.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Escolher

De tão súbito,
Como o último suspiro nesta vida.
Deixámos de escrever.

Depois de sentirmos a vida fugir,
Num instante de respiração.
Vem a morte e o estar morto,
Vem o sentir-se fora de si.

Morrendo num sítio que ainda desconheço,
Chamarás pela vida, ou não.
Ao que consta de lá ninguém voltou,
Deve ser bom.

Por lá fica,
Se essa vida se te apetecer,
Mais do que esta

Desejar

Desejar tão profundamente,
Não ligar,
Não atender a pedidos.


Desejar tão profundamente a indiferença.
Porque os diferenciados doem.

Desejar, desejar.
Porque só se começa a desejar,
Quando uma coisa,
Que outrora foi nossa,
Começa a tornar-se indesejável.

É isto desejar.
E por isto desejar é bom,
E por isto desejar é mau.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Português e Língua Portuguesa

Odeio Português.
Amo a Língua Portuguesa.


Levados como carneiros... Seremos um dia como os pensamentos de Caeiro, pouco alienados, restritos e acima de tudo como utopias infelizes.

Começa a estar na hora de lançarmos os espíritos ao lugar que lhes pertence.
Ao além.
Sejamos por uma vez livres.
Não sendo nas ruas, que seja no papel.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Esperar

Esperando.
Esperar.
À espera de qualquer coisa.
Como se de espera fosse feito o Amor.
E é?
Ou já não é?
É.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ao paralelo que me chama "sensível"


Numa daquelas manhãs amarelas, que mesmo claras não inspiram qualquer felicidade...entrei pela porta daquele edifício, a que um dia viria a chamar Casa.
De cabeça erguida, mas profundamente desmotivada, com uma camisa branca e umas calças pretas entrei naquela sala e sentei-me ao teu lado.
Aparentemente um rapaz com nervosismo miudinho, disperso, desatinado pelo sua perfeita disciplina. Quem sabe atento, mas o seu olhar não me dizia grande coisa. Era seco. Mal sabia o que dali viria.
Nesse dia fui capaz de sair sem saber o teu nome... Que importava? Não sabia nem o teu nem o de quase ninguém. E quando as pessoas não nos dizem nada inicialmente, temos tendência a colocá-las numa caixa fechada, no limiar de nós mesmos. Mal. Mas vá lá, esta não se fechou...

Semanas mal passadas no início. E por isso tu, tal como outras pessoas foram como peças de mobília, de um lar que não tinha vontade de construir.

Um dia um bichinho entrou-me, fulminante, pela entranhas. Foi numa aula de português. Ninguém se revelava muito e a tua intervenção, por muito brilhante que tenha sido, passou quase despercebida. Mas para mim não. Aquela tua frase parafraseada da obra de Camões foi como uma epifania. Senti-me ir ao céu... Foi  um orgasmo literário. Rendi-me nesse momento.

A aproximação não foi fácil, mas foi natural. Tão natural, que ainda hoje nos revelamos como eternas novidades um ao outro.

As tuas adorações quase obscenas por algumas das figuras que marcaram este país, deixavam-me louca. Irritada. Era capaz de exultar tudo o que me vinha de ti, numa frase ríspida e intolerante. Mas calma, a curiosidade nesse ponto falou mais alto, fui capaz até, de ouvir com atenção, o que para mim eram barbaridades. (ai o silêncio, o silêncio das mulheres do Aristóteles).
Sempre me fascinou o teu poder imaginativo, o teu silêncio sábio, o teu riso primeiro tímido depois mais solto. Foi pouco a pouco, mas com muita intensidade que a minha admiração por ti se foi revelando.

As memórias destas vivências de três anos ficam guardadas em nós, livres como nós mesmos. Mas o que escrevo de ti para ti é eterno e inesgotável como o infinito no limite exponencial.Não me canso, não me cansas e isso é o que de mais belo há em nós.

O que mais desejo para ti é que sejas Feliz. Na tua tão pura racionalidade honesta, que vás mais longe que Kant, que escrevas melhor que Reis, que comandes melhor que os teus ídolos, que saibas mais, muito mais que o Marcelo Rebelo de Sousa. Não te preocupes, para tudo isto...só precisas de ser tu mesmo.

Gosto de Ti.
E estou feliz porque abri ao Mundo a caixa onde te tinha guardado.
Continuamos?Assim o espero, saberás melhor que eu que a vida é efémera e passageira.

domingo, 21 de novembro de 2010

Apologia ao amigo Reis


Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa terá nascido em 1887, tendo sido apenas, em 1912 mostrado ao Mundo pela mão do ortónimo.
Mais baixo que Caeiro, de um moreno mate, seco mas forte, com uma educação rígida num colégio jesuíta é o homem que exulta a monarquia, o classicismo e a disciplina.

Ao nível das suas características informais destacam-se várias, que numa compilação una e coesa, desenham o denso panorama anímico do médico.
O neopaganismo é um domínio que o caracteriza. Acreditando nos deuses da antiguidade grega e rejeitando o cristianismo (A crença nos deuses é uma fé de uma espécie inteiramente diferente da fé cristã), por este constituir um impasse à vivência real e objectiva, não deixa de ver no que o rodeia, o divino. Para Reis, deus não é uma essência, não é uma entidade individual e afectiva, é um ser múltiplo, uma metáfora do Mundo.

A crença e aceitação do Fado, o cumprimento plácido dos desejos do Homem, com base na autodisciplina, ditam em suma duas características facilmente confundíveis: o epicurismo e o estoicismo.
No epicurismo, bebendo do seu pai Epícuro, o poeta, persegue numa indiferença ataráxica os seus mais profundos desejos. Embora se verifique nesta perspectiva, uma ambição de viver por inteiro, Reis através dos ensinamentos estóicos/neoclassicos impõe a si mesmo a disciplina que o moderando, impede o seu sofrimento, o compromisso e a sua ligação a paixões e a coisas inúteis: Abdica / E serás rei de ti próprio.
 A sua educação assume assim um papel autoritário nesta relação que, o "eu" íntimo estabelece com a vida e com o Mundo.

Temáticas como a efemeridade e brevidade da vida, a precariedade do Homem, a Natureza, a sua impotência enquanto médico, remetem de uma forma geral para a fragilidade do Homem, perante o destino, a força superior Desenlacemos as mãos, não vale a pena cansarmo-nos.
Numa perspectiva de superar todas as angústias, que progressivamente vão surgindo, o sujeito poético refugia-se nas odes clássicas e na falsa felicidade pagã partilhada com Horácio.

 Quanto ao nível das características formais, que criam a estrutura de base ao raciocínio Real verificamos: uma escrita erudita (Reis escreve melhor que o próprio Pessoa), regular na rima e na métrica, rica ao nível da classe de palavras e figuras de estilo. É caracterizada ainda pela falta de dinamismo, existência de monólogos estáticos que, enfatizam o carácter contemplativo do eu poético perante a Vida.
 Estão presentes elementos do latim e da antiguidade grega: "Lídia".

Por tudo isto e muito mais, Ricardo Reis é em suma apologista da procura e satisfação dos desejos do Homem, sendo esta desapegada, calma e sincera. É nesta aceitação tranquila do eu, do Mundo e da Natureza que se vislumbra, por momentos, a possibilidade de ser Feliz.

sábado, 20 de novembro de 2010

Julgar

Julgamentos entram-nos vírus. Espalhando-se pelo corpo consomem-nos, pouco a pouco, a alma Humana que tivemos um dia, no passado.
Amarrando-nos a nós próprios com estas correntes de aço, deixamos progressivamente de agir. Alienando-nos pelo vislumbrar do espectáculo, sem graça, que o Mundo oferece.
Há quem fique mais agressivo, outros mais tristes, outros para sempre fechados em si mesmos, outros ainda profundamente racionais... Qualquer coisa como isto... não importa. ficando só, sem Humanidade alguma. Porque o Homem natural é mediamente agressivo, mediamente contente, sociável e verdadeiramente, pouco racional.
 Julgando julgando, com todos esses processos dentro de nós, começamos a ser um amontoado de acórdãos de casos infindáveis... somos um pedaço de coisa alguma ou coisa nenhuma... Como todos os casos jurídicos: extensos, tristes e sem solução.

Quem julga as pessoas não tem tempo para ama-las.
( Madre Teresa de Calcutá )

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Caeiro


O Caeiro é um cínico.
Foi o único que não existiu.

Sangue

Era como abrir um pouco de mim.
Pelo respirar seco daquelas páginas virtuais,
Caiu-me por terra uma esperança há muito plantada...

Ele tinha escrito...

Estudos psicológicos indicam que paixões muito intensas duram entre 2 a 3 anos (...)

Era saber do que se tratava, sem o querer viver.
Recordava, para não querer:
Isto.
A angústia foi tão grande,
Que senti.
Deslizando, pelas entranhas...
Uma lágrima de sangue fruiu por mim

domingo, 7 de novembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desconhecido

Queria conhecer um Desconhecido,
Casar com ele talvez.
Ter filhos de um Desconhecido,
Quem sabe,
Podia ser Feliz...

Era não o conhecer a ele
Nem ter de me conhecer a mim,
Porque era para Ninguém,
Não tendo de ser alguém.

Era acordar e não dar satisfações,
Era chegar, sem preparar refeições.
Que importava tudo isso?
Ele não me conhecia,
O que mais sabia, nada lhe valia.

Se quisesse chorar,
Choraria.
Se quisesse esbofetear,
Esbofetaria.
Ele simplesmente não me conhecia.
Era Ser sendo verdadeiramente,
Sem medo.

Era poder bater com a porta,
Ou correr para uns braços ternos.
Era apresentar à família
Como amigo ou marido.
Era dizer tudo sem o perigo de ser magoado
Era fazer, sem ver pecado.

Que tal?
Parece-te bem?
...
A mim também.

Vamos tornar-nos Desconhecidos,
E fazer deste poema o nosso desconhecimento,
Para que nunca nos conheçamos verdadeiramente.
Isso dói. Muito.

sábado, 30 de outubro de 2010

Às vezes


Às vezes é tão fundo,
que custa regressar.
Às vezes somos felizes,
lá no sossego desse canto.
Às vezes dá-nos para rir,
De vez em quando,
Talvez uma lágrima brote.
Às vezes,
Quase nunca nos perdemos.
Às vezes,
Quase sempre nos encontramos.

Às vezes tudo isso.
Mas às vezes sim,
Às vezes parece mesmo que sentimos,
Parece mesmo que vivemos,
Por um segundo, o que pensamos.

Às vezes somos outro qualquer,
mas nesse sítio de "Às vezes"
Somos só nós e a imaginação,
Tentando ser o que não somos
Fugindo do que fomos;
Fingindo lá vamos sendo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Blogue

Novo blogue a não perder!!
Em construção.
Vai encontrar o lugar onde dois miúdos ambiciosos, de origens geográficas distintas, com uma necessidade ameaçadora de criticar tudo em volta escrevem escrevem e não se calam...só para tentar, no meio de tanta palavra alheia deixar um rasto, por muito pequeno que seja, nesta sociedade...

http://mediotutissimusibis.blogspot.com/

Esteja atento

domingo, 17 de outubro de 2010

Surdamente Silencioso

Encostando o ouvido na porta,
Oiço-me dormir.
Tão profundamente, respirando.
Habitualmente
Pelo sono tardio.

Caminhando pelos corredores infinitos,
Desta casa, vazia,
Tão cheia de si.
Correndo o risco de fazer o chão ranger,
Faço por me notar,
O que é inútil.
Neste lugar, até as paredes calam.

Tudo está surdamente silencioso.

As figuras dos pergaminhos,
Aproveitam para fazer os rituais.
Os olhos dos quadros reviram de cansaço
As cartas que escrevi,vão apagando as suas letras,
Uma a uma.

Por esta noite dentro,
Tudo se revolta num silêncio profundo.
Continuamos a dormir.

A roupa que não arrumámos,
Espraia-se mais pelo chão.
As televisões chovem,
Um papel cai em cima da tinta do dia anterior.
As madeiras chiam, dando por pretexto
O frio do Outono que já chega.

Tudo está surdamente silencioso.

Silêncio.

Mas nessa mudez,

Viro-me na cama.
Abrindo os olhos sem notar,
Vejo as horas:
3:07 da manhã.
Apago as minhas luzes.

Nada do que está importa ou importou,
Só o amanhã nos faz falta.

O relógio da sala,
Decide bater,
Por já ser hora de um novo dia.

O hoje já é amanhã.
Agora, pelo rebuliço,
Acordo com um trabalho manchado,
Uma roupa escolhida.
Mas não importa.
O que me não pertencia.
Agora já é meu.
Era só o amanhã que eu queria.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Apelo

Que os rios da fluidez da mente te guiem.
Não torpeces em pegadas desdenhadas de ausência presente.
Não olhes a meios para atingir estados.
Procura sede eterna e não a felicidade.
Vê e não olhes.
Vive e não contenhas.

Pára e pensa:o Mal e o Bem estão na alma, não estão nos materiais nem por aí, como se diz.

Partilhar

-"Estou cheia de pressa"
-"Não não, agora não dá"
-"Manda por mail que depois dou uma vista de olhos"
-"Ok, ok... Depois mando mensagem a avisar"
-"Só posso mesmo até as 18:30"
-"Podes-te despachar se faz favor"
-"Lá está ele a falar de coisas que não interessam para nada"
-"Segunda tenho ténis, terça equitação, quarta tenho de dar banho aos meus irmãos, quinta tenho de estudar para o teste de sexta... por isso talvez nos vejamos lá para o fim de semana"
-"Que tal um cafezinho de 5 minutos?"

Tão, tão profundamente encafuados no nosso mundo e nos nossos afazeres... que de repente, a vida deixou de "se passar", passando apenas.
Hoje apetece-me partilhar; partilhar aquilo que a partilha às vezes não me dá. Façamos uma pausa e partilhemos o que de melhor se vislumbra na partilha: O dar do nosso tempo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um pouco sobre Pessoa e a sua "dor de pensar"

Não há felicidade senão com conhecimento. Mas o conhecimento da felicidade é infeliz; porque conhecer-se feliz é conhecer-se passando pela felicidade, e tendo, logo já, que deixá-la atrás
Livro do Desassossego de Bernardo Soares

   Fernando Pessoa foi o Poeta do século XX, influente e influenciado pelo movimento modernista, vemos na sua escrita vanguardista marcas profundas desta corrente artística, nomeadamente a necessidade de intelectualização constante de tudo o que o rodeia.
   Enquanto pensador, podemos destacar três principais temáticas, sendo a "dor de pensar" aquela que, de certa forma, coordena e se impõe perante as outras duas. Este tema é abordado não só em poemas como "canta pobre ceifeira" e "gato que brincas na rua" como também é alvo da escrita do seu lúcido e sóbrio heterónimo Bernardo Soares (facto que é visível no parágrafo transcrito em cima, do livro do Desassossego).
    Esta "dor de pensar" do poeta advém da incapacidade de conciliar a consciência e a inconsciência numa dinâmica produtiva, que na prática se explicita na impossibilidade de ser feliz e ao mesmo tempo aquilo que se revela, profundamente lúcido. Segundo Pessoa, esta relação paradoxal surge no seguinte raciocínio: para se ser feliz é necessário ter-se conhecimento disso, no entanto "o conhecimento da felicidade é infeliz" e por isso a felicidade implica ser-se infeliz.
   É pela percepção desta inevitável conclusão, que Pessoa se sente irreversivelmente perdido, com necessidade obrigatória de fragmentação e dispersão (de onde surge a heteronímia). Não achando conciliação possível entre a profunda ambição de ser feliz e tudo o que a consciência implica, o poeta torna-se o eterno insatisfeito.
   É através desta conjectura complexa, que os leitores se apercebem da genialidade deste Homem, tendo sido por isso considerado o maior crítico introspectivo da história da literatura.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Memórias

De brisas passadas,
Veio pelo silêncio da noite
Um primeiro sorriso conformado.

É verdade, amei-vos com força,
Com força de âncora,
Numa maré que nunca irão conhecer.

Senti-vos por breves instantes,
E no milésimo de segundo, sem a minha solidão,
Desejei voltar,
Voltar ao que fomos um dia.

Mas, o tempo é isto mesmo.
É feito de minutos sozinhos e horas acompanhadas.

Rápido percebi...
O meu lugar já não é aí.
Eu já pertenço aqui.

Fui construindo um Mundo,
E o que construí,
Já está bem longe daí.

Mas,
Agradeço.
Pude crescer.

Encerro este capítulo,
Que fechava a cadeado nas memórias.
Enfim... O coração abriu-se.
E já só me ficam os vossos sorrisos,
Que tanta piada, um dia achei.
Data:27/12/09

Saudades

Têm-se saudades.
Mas porque se tem?
Por se ter de tê-las ou nunca as poder ter?

Saudades é aquilo que se tem quando não se tem.
Saudades é quando queremos morrer e algo nos mantém vivos.
Saudades é de mim, é de ti, é dos abraços e é do Mundo.
Saudades não é do tempo nem do espaço, é de mim por ti.
Saudade é querer tocar e já não lembrar o que isso é.

Saudade é não chorar, não rir, é parar.
Ficar bloqueado, sem Amor, sem ideias.
Só com saudades.

As saudades não estão nas coisas nem nos outros,
Estão em nós.

É aquilo de que te queres livrar
E não consegues,
Porque as saudades têm sempre eternas saudades tuas.

Data:12/08/09

Pensar

O que nos leva longe é a força de querer pensar.
Pensamos mais, sim.
Mas acima de tudo, começamos a pensar melhor.
Somos mais felizes... Assim há quem diga.
Eu ainda não sei.
Continuo a pensar às vezes, sem pensar, ser feliz

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Cego no espaço

Hoje ouvi a história de um cego que conseguia ouvir o espaço.
Pressentia a presença, a ausência.
Sentia a falta delas.
Por vezes implorava por elas.

Ouvi a história de um cego,
Mas quem me dera que muitos dos que vêem pudessem por um segundo ouvir o espaço ou quiçá a falta dele.
A mim...
Às vezes falta-me o espaço,
Outras vezes ando à procura dele.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fernando Pessoa

Este post é dedicado a si Caro leitor que votou na sondagem dos 10 últimos dias!
Será então Fernando Pessoa o grande poeta, que irá preencher o espaço da frase do dia neste mês de Outubro!
Tenho de admitir que os leitores deste quase inóspito blog têm um gosto requintado e muita apurado.... Pessoa foi e é ainda sem dúvida o maior poeta desta nossa pátria que é a língua portuguesa.
Que Pessoa ortónimo e heterónimos possam preencher um espaço na nossa vida, encher-nos de um sentimento e de uma sede de viver, que o próprio poderá nunca ter experimentado...
Um muito obrigada

sábado, 2 de outubro de 2010

Corríamos

Nesses campos corríamos,
De almas desfraldadas de amargura,
Corríamos, como se não houvesse fim.

Por todo o lado
Aquela erva fresca,
Enchia os nossos pulmões,
De um ar inesgotável.

A mente esquecia a fome, 
Porque éramos saciados na eternidade.

Corríamos,
Como nos sonhos,
Sem cansaço,
Sem ter a necessidade de pensar em algo.
Corríamos
E só isso nos interessava
Não sabendo sequer o que era o Interesse.

Quando ao fundo víamos a nossa ribeira,
Os nossos corações aceleravam.
As pernas numa agonia pacífica
Davam de si.

Num instante éramos
Adão e Eva,
Nus de si para si,
Correndo pelo Éden.

Estávamos tão apaixonados,
Não sabendo como, nem porquê
(Não que isso interessasse, porque nem isso sabíamos o que era).

Mas depois,
Depois veio o Desassossego...


E nunca mais lá voltámos.